quinta-feira, 6 de novembro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Para Nico
As mãos e os frutos
Eugénio de Andrade
(19/01/1923 - 13/06/2005)
I
Só as tuas mãos trazem os frutos.
Só elas despem a mágoa
destes olhos, choupos meus,
carregados de sombra e rasos de água.
Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
– Ó mãos da minha alma
flores abertas aos meus segredos!
II
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
III
Quando em silêncio passas entre as folhas,
uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
para as fontes a beber-te a face.
IV
Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos
ficamos longamente à sua espera.
V
Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.
Algumas preposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração
Os pássaro nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
(Ruy Belo - In. Homem de palavra(s))
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
A árvore do esquecimento
-Esta é a árvore.
-A árvore?
-A árvore do esquecimento.
Não havia em toda a redondeza um exemplar maior de mulambe*. A árvore era conhecida, desde há séculos, como "a árvore das voltas": quem rodasse três vezes em seu redor perdia a memória. Deixaria de saber de onde veio, quem eram os seus antepassados. Tudo para ele se tornaria recente, sem raíz, sem amarras. Quem não tem passado não pode ser responsabilizado. O que se perde em amnésia, ganha-se em amnistia.
* imbondeiro
(Mia Couto - O outro pé da sereia. p. 276)
domingo, 31 de agosto de 2008
"Imagino que nenhum idiota jamais tenha negociado a alma com o diabo: o idiota é idiota demais, ou o diabo diabólico demais - não sei qual dos dois. Ou você pode ter um espírito tão magnificamente elevado que se mostrará totalmente surdo e cego a tudo que não sejam visões celestiais. Nesse caso, a Terra, para você, é só um lugar de passagem - e não me atrevo a dizer se representa uma perda ou um ganho ser assim. Mas a maioria de nós não é nem de um modo nem de outro. A Terra, para nós, é um lugar onde vivemos, onde precisamos nos habituar às visões, aos sons, e aos cheiros também [...] E é aí, não vêem, que a força de vocês intervém, a fé na sua capacidade de cavar buracos discretos para neles enterrar as coisas - o seu poder de devoção não a si mesmos, mas a um trabalho obscuro e exaustivo. [...]"
(Coração das Trevas - Joseph Conrad)
(Coração das Trevas - Joseph Conrad)
terça-feira, 19 de agosto de 2008
"Bonito dia para se morrer", pensei ao olhar a bola amarela que manchava o céu azul. Mais adiante, depois de ter dado cabo das pequenas obrigações diárias, meus olhos pararam em uma senhora. Era magrinha, cabelos branquíssimos, semi-presos com grampos. Andava devagarinho...cautelosamente. Suas frágeis mãos pareciam tatear o ar quente que flutuava pelo dia.
Não sei porque motivo ela me chamou a atenção. Talvez por eu ter sonhado com minha bisavó na noite anterior ou ainda por gostar de me deparar com velhinhos...eles me transmitem um conforto e me despertam uma compaixão incríveis. Sem mencionar a saudade gostosa que sinto daquilo que não vivi...
Diminui o passo a fim de acompanhar, por mais alguns instantes, aquela senhora. Tentei imaginar como seria seu rosto...Mas, ao me lembrar dos outros compromissos do dia acelerei as passadas e ultrapassei a velhinha. Não quis olhar para trás para descobrir suas verdadeiras feições. Preferi guardar na minha memória o esboço imaginário daquele rosto, assim como guardo a saudade do tempo que não vivi.
Atravessei a rua. Estava vazia, como se todos estivessem se esfumaçado no espesso ar quente...nenhum barulho. Uma paz grandiosa dominou a rua, o dia...e ela era tão forte e tão palpável que foi preciso cerrar os olhos para sentí-la inteira...saboreei aqueles segundos como se fossem os últimos da minha vida. Não! como se fossem os últimos segundos do mundo. Tive a certeza de que todos sentiam o mesmo que eu...O tempo passava mais lento.
Bonito dia para se morrer...
domingo, 17 de agosto de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
Balões Coloridos...(Música:"Palhaços" - Egberto Gismonti)
Para as crianças grandes que andam por aí...
"[...] Pegar um livro e abri-lo contém a possibilidade do fato estético. Que são as palavras impressas em um livro? Que significam esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. Que é um livro, se não o abrirmos? É, simplesmente, um cubo de papel e couro, com folhas. Mas, se o lemos, acontece uma coisa rara: creio que ele muda a cada instante".
(Jorge Luis Borges/1978)
(Jorge Luis Borges/1978)
segunda-feira, 21 de julho de 2008
O PALHAÇO (Para meu cunhadinho)
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