sexta-feira, 7 de agosto de 2009
"Leve como leve pluma muito leve leve pousa..."
"Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que à maneira de Perseu eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos..."
(Ítalo Calvino)
sábado, 30 de maio de 2009
(...)
- Não quero pousar mais, só repousar.
E olhou para cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão intenso que se vertia líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como se um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.
Era o ponto final.
(...)
(In.: O último voo do flamingo, de Mia Couto)
segunda-feira, 11 de maio de 2009
terça-feira, 5 de maio de 2009
Para Ju, irmã gêmea de corpo, alma e coração.
Para Laura, muito mais que professora... amiga.
Para Neto, com amor e saudade.
Hoje fiz um bolo de fubá.
Queria acalentar o mundo
E cantar para ninar...
Às vezes não sei bem como fazer
Por isso talvez atropele as coisas
E acabe por invadir o espaço que não é meu...
Mas invado sem querer
Feito fumaça e cheirinho de erva doce.
Por isso hoje eu fiz um bolo de fubá.
Queria acalentar o mundo
E cantar para ninar...
Giselle Veiga
(3/5/09)
terça-feira, 21 de abril de 2009

Todas as Vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeirado Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão. Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!
Cora Coralina
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeirado Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão. Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!
Cora Coralina
segunda-feira, 30 de março de 2009
"... poesia para mim, não é algo que apenas se escreva. Mas que se vive. Parece uma 'grande' declaração, mas a verdade é que, se não fosse escritor, creio que manteria uma relação poética com o mundo como condição para ser feliz (...) cresci num ambiente em que se valorizavam as pequenas coisas, a descoberta de beleza à moda Manoel de Barros: brilho entre cinzas e lixos. Lembro-me de meu pai me conduzir entre as velhas linhas do trem para descobrir pequenas pedrinhas brilhantes, tombadas dos vagões de minério. (...) Essa foi a minha primeira lição de poesia. Ainda hoje vivo assim, com olhos na terra ciscando por faíscas de beleza."
(Entrevista - Mia Couto)
(Entrevista - Mia Couto)
sexta-feira, 27 de março de 2009
domingo, 1 de março de 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Carnaval - António Feliciano de Castilho (1843)
O d'este anno, a despeito do rigor da estação, que só no terceiro dos tres dias solemnes deixou ver o sol, foi abundante de feijões e tremoços, representações, bailes, e mascaras.
A generalidade de taes dispendios populares (observa um philosopho) é sempre um symptoma de pobreza. A nossa já não carecia de taes provas para ser conhecida.
Em geral, duas coisas podémos observar n'este entrudo: os brincos selvagens passaram de moda, mas o bom gosto na escolha dos divertimentos não se tem apurado. Os nossos mascarados são, com pouquissimas excepções, insignificantes autómatos, que dizem pouco, e não significam nada. Tomam uma mascara e qualquer vestido que não seja o seu, e com isso teem satisfeito a sua consciencia de carnaval.
O baile mascarado de S. Carlos esteve deploravel nas duas primeiras noites; na terceira concorreu gente bastante, e os disfarces chegariam a cento e cincoenta.
O sahimento do entrudo ao bater da meia-noite foi espancado e corrido com tal pateada, que os da comitiva se tornaram sem o haverem podido enterrar. Com rasão. A parodia da coisa mais solemne e tremenda do mundo é abominavel n'uma festa. Os cantos e trajos da Egreja, atraz de um pendão com cruz e caveira, precedendo a um esquife com um mono dentro, é uma tão insensata e semsabor impiedade, que devem para sempre desterral-a.
Outro tanto dizemos dos habitos religiosos, com que alguns mascarados andavam promovendo o já pleonástico desprezo das coisas da Egreja, na hora mesma que precede ao dia das cinzas, na entrada do tempo da penitencia!
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